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Emissões versus Susceptibilidades

Vamos continuar mantendo o foco nos aspectos mais fundamentais das emissões e susceptibilidades. A Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC) descreve as emissões eletromagnéticas como “os fenômenos pelo quais a energia eletromagnética emana de uma fonte” (IEC, 1989). Podemos fazer uma analogia visual com uma fonte de água: parte da água que deixa a fonte chega até nós no estado líquido na forma de fluxo, parte da água chega na forma de vapor d'água.

Da mesma forma, parte da energia eletromagnética que deixa a fonte de emissões chega até nós pela forma conduzida (corrente elétrica), parte chega pela forma irradiada (campos e ondas).A analogia não para por aí, assim como parte da água da torrente vira vapor ao se combinar com o ar, não existe corrente elétrica sem campos a ela associados.

A susceptibilidade é descrita pela IEC como “a incapacidade de um dispositivo, equipamento ou sistema de operar sem degradação de desempenho, quando na presença de perturbações eletromagnéticas” (IEC, 1989). A susceptibilidade é uma característica indesejável, ao contrário da sensibilidade que é uma característica desejável.

Susceptibilidade versus Sensibilidade

Vamos tentar aprofundar um pouco mais a diferença entre esses dois conceitos. A sensibilidade é a capacidade de detectar estímulos desejáveis, mesmo que esses tenham muito pouca energia. Explicando melhor, a capacidade de um receptor de rádio captar sinais de outros transmissores, mesmo que com pouquíssima energia, implica que esse receptor vai ser capaz de manter comunicações seguras, com transmissores localizados a distâncias maiores. A sensibilidade de um receptor faz referência à capacidade deste captar estímulos diminutos que cheguem pelos terminais de antena do receptor e não pelos cabos de alimentação.

A susceptibilidade, por outro lado é a “capacidade” de um dispositivo, equipamento ou sistema de “captar” sinais indesejáveis ou, melhor dizendo, perturbações. No caso do receptor de rádio, teríamos manifestações de susceptibilidade caso este parasse de funcionar corretamente devido a transitórios nos terminais de alimentação, ou mesmo que captasse sinais de outros transmissores que tivessem frequências situadas fora dos limites da faixa de operação do receptor. Por exemplo, quando um receptor projetado para operar na faixa de FM comercial (88-108MHz) capta sinais de comunicações aeronáuticas (118-137MHz), pode-se dizer que o receptor está manifestando susceptibilidade e não sensibilidade.

Susceptibilidade versus Imunidade

Susceptibilidade e Imunidade são conceitos complementares. A definição de imunidade pode ser obtida substituindo o termo incapacidade por capacidade na definição de susceptibilidade. A mudança de uma palavra na definição tem um efeito vital na compreensão dos conceitos, e o uso inadvertido dos conceitos de imunidade e susceptibilidade como se significassem a mesma coisa pode trazer problemas.

Os dois termos têm implicações sutilmente diferentes, porque não existe equipamento, dispositivo ou sistema que não acabe por manifestar algum tipo de susceptibilidade desde que se se possa elevar os níveis de perturbações à vontade. Por outro lado, uma vez que se defina um espectro de perturbações e “teto” para a energia que essas perturbações podem apresentar, o equipamento, sistema ou dispositivo sob investigação será considerado imune se for capaz de operar sem degradação de desempenho na presença de perturbações que estejam de acordo com a especificação do ambiente eletromagnético previsto.

Explicando melhor, quando dizemos que um equipamento é imune, temos que dizer quais tipos de perturbações padronizadas que injetamos no equipamento durante os testes de imunidade, e em quais acessos do equipamento essas perturbações foram injetadas. Não se pode dizer com certeza o que pode ocorrer a um equipamento, quando injetamos perturbações em acessos diferentes daqueles previamente testados. E menos ainda pode ser dito sobre a imunidade de um equipamento, se mudarmos os sinais perturbadores.

Os graus desejáveis de imunidade são atingidos por meio de precauções de projeto que são decididas com base em requisitos específicos, muitas vezes essas precauções são dimensionadas com base em “critérios de degradação” (níveis ditos toleráveis de degradação de desempenho). Por exemplo, durante os ensaios de imunidade de um reprodutor de DVD automobilístico, podemos considerar toleráveis algumas distorções na imagem exibida e, por outro lado considerar alterações mais “graves” de comportamento, como voltar ao início do filme, saltar trechos, etc como sendo intoleráveis.

Nos próximos artigos vamos examinar o mecanismo de uma interferência eletromagnética.